Rubens Vaz Ianelli

APRESENTAÇÃO
 
Não é raro famílias manterem, durante gerações, o mesmo mestiere, isto é, o mesmo ofício, a mesma profissão.
Rubens Ianelli pertence a uma família de artistas, é filho de Arcângelo e sobrinho de Thomaz, mestres da arte moderna brasileira, duas personalidades de poéticas distintas. Desde a infância, no ateliê do pai, Rubens brincou com pincéis, tintas e telas e cresceu num ambiente diferenciado.
A casa de seus pais estava sempre cheia de amigos, de artistas e de intelectuais. Dirce, sua mãe, mantinha a mesa farta, da boa cozinha italiana, e a conversa atravessava madrugadas. Assim, Rubens conviveu com Paulo Mendes de Almeida, Marc Berkowitz, Alfredo Volpi, Aldemir Martins, Saciloto, Fiaminghi, Juan Acha, Rufino Tamayo, entre tantos outros. Muitos deles exerceram papel importante na sua formação.
 
Rubens Ianelli iniciou sua atividade de artista plástico num período conturbado, a década de 1970. Período em que a ditadura militar atingia o seu momento mais repressivo.
Mesmo assim, Rubens não se intimidou com a repressão e manteve intensa atuação no movimento estudantil e nas lutas pela redemocratização do país. A preocupação social se mantém sempre presente nas diversas fases de sua pintura.
 
A geometria foi o ponto de partida, uma geometria com tratamento poético. Influenciada no aspecto construtivo, pelo pai, e no lúdico pelo tio. Essas duas vertentes – o construtivo e o lírico, formam as duas margens que dão sustentação ao fluxo criativo de toda a sua produção artísticas. Nos primeiros anos, entre 1970 e 1973, participou de mais de dez Salões de Arte, obtendo diversos prêmios, e assim foi se impondo como artista, tarefa nada fácil para quem carrega o sobrenome Ianelli e vive no meio dos consagrados Arcângelo e Thomaz.
 
Mais tarde formou-se médico e voltou-se para a pesquisa científica voltada aos estudos de Saúde Pública e trabalhou como sanitarista, combatendo epidemias nas comunidades indígenas no Acre. A pintura foi sempre sua companheira, mesmo no exercício da medicina. A arte tem sido a forma vital de relacionar-se com o mundo e com as pessoas.
Além das atividades de cientista, sua vivência junto as diferentes etnias trouxe, para o seu olhar de artista, experiências únicas que enriqueceram sua poética plástica.
Seus desenhos, espécie de diário afetivo e reflexivo desse período, procuraram registrar a riqueza cultural daquelas comunidades. A arquitetura dos índios e seus artefatos, a plumária, a pintura corporal, os mitos – tudo foi anotado na ponta do lápis, no gesto do pincel, nas aguadas, e nas aquarelas, que mais tarde, já no ateliê em São Paulo, deram seqüência a telas de grande formato, colagens, objetos, assemblages e esculturas. Esses povos da floresta influenciaram sua concepção de mundo, seu humanismo e sua postura de artista. Os cantos da mata ainda exercem força mágica no imaginário do artista.
 
Na pintura, assim como nas aquarelas, a linha tem função independente da matéria e da cor.
Rubens trabalha com afinco a linguagem gráfica. Exercita inúmeros desenhos de uma única linha, de trajetória complexa e elegante. Sente prazer pela linha contínua, sinuosa,plena de significado e de vida. A linha é matéria prima de grande parte de seus projetos visuais. Entretanto, a cor não aceita o papel de coadjuvante, é substantiva, tem protagonismo próprio. Dialoga com a linha, mas não se submete a ela. Rubens trabalha os tons adotando uma graduação sutil. Com essas variações de tonalidade o artista trabalha a luz, filtrando-a numa sucessão de nuances, e abrigando sombras através do adensamento tonal. A cor e a luz raramente sugerem volumes ou perspectiva, quase sempre atuam como se fossem massas sonoras, estruturas musicais.